"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."  - Clarice Lispector

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atalhos...



"Ela estava parada em uma encrusilhada da estrada. Qual caminho escolher?
Nunca parara para pensar sobre bifucarções no caminho, tinha traçado seu objetivo, pensara em seguir direto para ele, como um cavalo que apenas segue em frente e nada vê ao redor; ela tinha colocado sua viseira mental.
Mas a vida tem a incorrigível mania de causar duvidas, trazer surpresas...E agora ela não sabia o que fazer. 'Qual caminho devo seguir?' ela se perguntava. Não queria escolher, ela nunca foi boa em tomar decisões, ela nunca foi boa em seguir seus proprios passos, em fazer suas proprias regras...Era mais seguro, fazer o caminho conhecido, seguir a maré, obedecer aos padrões.
Ela estava confusa, e ja tinha perdido muito tempo. Sentada no meio da estrada, no limite entre as duas estradas, ela era apenas alguém que não sabia para onde ir.
Mas, derrepente uma luz à esquerda a atraiu. O sol estava se pondo, provocando nela uma incrivel atração , como uma seta reluzente, apontando o caminho. Ela nunca gostou dessa classificação e tudo que isso significava: O lado esquerdo, o lado oposto, o impar...aquele que não seguia os padrões.
Assim se dera conta, aquele era um atalho.
Se seguisse pela direita, continuaria seu caminho, o caminho seguro, o caminho esperado, o caminho onde nada de especial aconteceria.
Mas o sol estava lá...Oh, o sol...brilhando tão forte, trazendo paz, esperança, alegria a uma menina que nunca pudera sentir a liberdade de apenas ser alguém...alguém que cria seus proprios caminhos. Será que é realmente tão ruim? Tomar o caminho menos convencional? Sentir a liberdade e a ansia por um novo passo...?
Ana estava fascinada, seguia o sol como uma criança que corre atraz de um pequeno e doce coelhinho, como alice seguira o gato; e isso fez nascer outra Ana, a que sabia viver com suas proprias escolhas."

domingo, 6 de janeiro de 2008

O Jogo do Espelho

"Olhando no espelho do meu quarto essa manhã, pensei que era pequeno demais. Então, debruçando-me para ver melhor, porque ia viajar à tarde e queria estar bem, recordei-me aquele antigo jogo, de que geralmente nem me lembrava.
Parecia tão deslocado na minha vida de agora.
O Jogo: do tempo em que eu não era uma pacata dona-de-casa com filhos criados, mas uma menina sem mãe; que inventava o jogo do espelho pra ser menos infeliz.
A gente sentava na frente de outra menina e encarava: tão intensamente, com tamanho fervor e tanta vontade de a ver mudar, que a imagem aos poucos perdia seus contornos; ficava um borrão.
Por detrás do reflexo familiar ia-se formando outro alguém. De início, sorrateiro; depois, dominando tudo com seu poderoso olhar.
Seu nome também era: Alice.

-

Ela: o contrário de mim, meu reverso. Sempre à espera, por baixo da superficie. Livre pra detestar tudo o que, aqui fora, eu era obrigada a aceitar.
Alice, a dividida: foi assim que me senti essa manhã, um pouco aborrecida por rer de viajar. Estreitei os olhos, avaliando detalhes desre rosto: mais um pouco, serão cinqüenta anos.
A essa altura, o pior passou: as dúvidas, as inquietações, encobertas pelas águas da rotina. Sou apenas uma dona-de-casa, vida exclusivamente doméstica, marido e dois filhos que já são quase homens e nunca me deram preocupação.
Mas hoje sou obrigada a sair dessa concha: por um fim de semana, estarei na casa onde meu pai mora faz alguns anos, com minha irmã mais moça, Evelyn, e seu marido. Uma cidade próxima, uma hora de ônibus. Para que todo um fim de semana? Bastaria um encontro rápido, uma tarde talvez.
Não gosto de sair de casa; detesto viajar sozinha, e meu marido recusou-se a vir: afinal, disse, não era problema dele.
Se eu quisesse poderia ir. Então resolvi aceitar, mas, como não estou habituada a tomar decisões, fiquei inquieta.
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(Não estarei andando à beira do abismo, as úmidas asas movendo-se no casulo...O que aconteceria se eu aceitasse incondicionalmente os convites de Alice e me enfiasse com ela em seu caminho de tantos reflexos?)

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(....)

Eu brincava assim na meninice: de não ser eu. Não a coitada filha daquele Professor a quem ninguém apreciava; mas outra Alice - poderosa, inconquistável.
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( Tudo fantasia. Mais tarde habituei-me à minha vida doméstica e segura; fora dela fico desamparada como um bicho que, despido da casca, expõe um corpo viscoso e mole, onde qualquer caco de vidro no chão pode penetrarm liquidando essa vida rastejante.)


Lya Luft - Reunião de Família. (trecho)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007




Clara estava em pé na varanda, olhando o mar revolto que batia nas pedras à beira da praia, o vento soprava em teu rosto de porcelana, e balançava seus longos cabelos negros. Nesse momento a doce menina tinha os olhos perdidos em algum ponto da imensidão de nuvens cinzentas que começavam a tomar conta de um céu que até pouco tempo era de um intenso azul.
Nem eu saberia dizer ao certo quanto tempo havia transcorrido, desde o primeiro pensamento, desde que Clara pulou de ponta e mergulhou em seus sentimentos...
Ela sabia que muita coisa tinha mudado, e que mais mudanças estavam por vir, mesmo não sabendo dizer se aquilo lhe fazia bem ou mal.
Em algum momento de seu profundo mergulho sentiu todo o calor de seu corpo se esvair de uma vez, seria apenas uma rajada de vento? Ela gostaria de acreditar que sim, mas no fundo sabia que aquilo nada mais era do que seu coração lembrando-lhe de que as vezes é impossivel entender ou até mesmo aceitar algumas coisas que acontecem...Foi exatamente ai que começamos essa história.
Era tão triste perceber que as coisas haviam mudado de uma maneira irremediável sem que ela pudesse notar. Talvez teria sido menos cruel se tudo tivesse sido derrepente, que tudo tivesse sido visivel, seria mais compreensivel ao menos, já que mesmo após tanto tempo, Clara não conseguia saber em que momento a vida a levou para longe...Para longe da pessoa que ela mais precisava. Tudo que sabia, era que já era tarde para voltar, pois a chuva e os ventos haviam apagado suas pegadas na desconhecida trila que havia tomado.
"Eramos tão unidos, tão felizes, eramos fortes e juntos poderiamos passar por qualquer problema..."
Sempre havia sido assim, e Clara sabia que agora ela nada mais era do que uma pode menininha idefeza, Clara estava sem seu guia, sem seu anjo da guarda, como se aquilo fosse um castigo dos Deuses...O que teria feito para perder assim o rumo de seus passos? Será que enquando observava as estrelas o mundo apenas à mudou de lugar?
O barulho de uma forte trovoada trouxe clara de volta à uma varanda mal iluminada. Clara respirou profundamente enquanto as primeiras gotas anunciavam um grande temporal vindo das nuvens negras que agora cobriam todo o azul de outrora... Tudo que restava era esperar o temporal acabar, e torcer para que com a chegada de um novo dia de luz e calor, Clara pudesse enxergar o melhor caminho a seguir...