"Olhando no espelho do meu quarto essa manhã, pensei que era pequeno demais. Então, debruçando-me para ver melhor, porque ia viajar à tarde e queria estar bem, recordei-me aquele antigo jogo, de que geralmente nem me lembrava.
Parecia tão deslocado na minha vida de agora.
O Jogo: do tempo em que eu não era uma pacata dona-de-casa com filhos criados, mas uma menina sem mãe; que inventava o jogo do espelho pra ser menos infeliz.
A gente sentava na frente de outra menina e encarava: tão intensamente, com tamanho fervor e tanta vontade de a ver mudar, que a imagem aos poucos perdia seus contornos; ficava um borrão.
Por detrás do reflexo familiar ia-se formando outro alguém. De início, sorrateiro; depois, dominando tudo com seu poderoso olhar.
Seu nome também era: Alice.
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Ela: o contrário de mim, meu reverso. Sempre à espera, por baixo da superficie. Livre pra detestar tudo o que, aqui fora, eu era obrigada a aceitar.
Alice, a dividida: foi assim que me senti essa manhã, um pouco aborrecida por rer de viajar. Estreitei os olhos, avaliando detalhes desre rosto: mais um pouco, serão cinqüenta anos.
A essa altura, o pior passou: as dúvidas, as inquietações, encobertas pelas águas da rotina. Sou apenas uma dona-de-casa, vida exclusivamente doméstica, marido e dois filhos que já são quase homens e nunca me deram preocupação.
Mas hoje sou obrigada a sair dessa concha: por um fim de semana, estarei na casa onde meu pai mora faz alguns anos, com minha irmã mais moça, Evelyn, e seu marido. Uma cidade próxima, uma hora de ônibus. Para que todo um fim de semana? Bastaria um encontro rápido, uma tarde talvez.
Não gosto de sair de casa; detesto viajar sozinha, e meu marido recusou-se a vir: afinal, disse, não era problema dele.
Se eu quisesse poderia ir. Então resolvi aceitar, mas, como não estou habituada a tomar decisões, fiquei inquieta.
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Não estarei andando à beira do abismo, as úmidas asas movendo-se no casulo...O que aconteceria se eu aceitasse incondicionalmente os convites de Alice e me enfiasse com ela em seu caminho de tantos reflexos?)
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Eu brincava assim na meninice: de não ser eu. Não a coitada filha daquele Professor a quem ninguém apreciava; mas outra Alice - poderosa, inconquistável.
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( Tudo fantasia. Mais tarde habituei-me à minha vida doméstica e segura; fora dela fico desamparada como um bicho que, despido da casca, expõe um corpo viscoso e mole, onde qualquer caco de vidro no chão pode penetrarm liquidando essa vida rastejante.)
Lya Luft - Reunião de Família. (trecho)