"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."  - Clarice Lispector

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A voz do Silêncio

...E naquela noite nada mais conseguia existir.

Nada preencheria o vazio causado pelas palavras nunca ditas e de todos os sonhos não sonhados.

Era apenas o vazio...

O vazio dos dias cheios de silêncio em um mundo que parecia não fazer sentido.

Deitada na cama a ouvir o silêncio de um mundo que não ousava respirar, ela procurava pela estrela que a guiaria. O lugar tinha que existir. Esse lugar que vivia e gritava dentro dela.

Aquele sonho devia existir em um outro mundo qualquer além do infinito e negro céu, além do que era possível ver.

“Mas quem sente com alma jamais precisou de olhos” ela ouvira dizer.

Na escuridão de um gélido quarto, Clara esperava que as estrelas do céu a levassem dali...

E ao fechar os olhos, Clara sorriu ao ouvir o que o silêncio lhe dizia:

“Siga as estrelas, eles te levarão até mim...”.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

"O que adianta acordar todos os dias, tomar meu banho quente e engolir rapidamente alguma coisa pra preencher o vazio do meu estomago se minha alma continua vazia?"- era o que o jovem John se perguntava todos os dias.

Fazia muito tempo que buscava por algo. Uma nova idéia, uma esperança que desse sentido a dias vazios e pateticamente iguais. Todas as pessoas pareciam agir como em 'modo automático'. Todas elas, sem exceção tinham a mesma aparência, a mesma expressão no rosto, vestiam as mesmas roupas e falavam sobre os mesmo assuntos. Ele também já fora assim um dia, nem se lembrava a quanto tempo tinha mudado, ou que feitiço o fez acordar da prisão em que vivia e jogá-lo à uma queda livre de incertezas, tudo que ele sabia é que certa vez acordara se sentindo vazio, ansiando por uma resposta, por algo que pudesse preencher a lacuna que a perda da coletividade havia deixado. 

Desde que acordara desse estranho mundo homogêneo em que vivia John tentava, em vão, preencher as lacunas de sua existência... Vivia em meio à livros, procurara doutrinas que pudessem explicar o que diabos estava vivendo, alguma coisa que pudesse apontar o caminho... 

Enquanto batia a porta de casa sem se despedir dos familiares, que ultimamente pareciam apenas figuras apáticas como personagens secundários de um romance , John aumentava o volume de seu ipod, ultimamente essa tinha sido a única saída para sua angustia; esperava que alguma combinação harmônica pudesse despertar nele algo que mudasse sua vida, que pudesse torna-lo livre...mas tudo que tinha conseguido até o momento era se livrar de conversas sobre o tempo, ou sobre a ultima fofoca internacional... Pelo menos assim se mantia afastado...

-

Afastado...

-

Um barulho tira o velho e cansado John de seu devaneio matinal...

Quanto tempo havia se passado? Nos últimos 50 anos tudo parecia tão vazio... Se sentia fraco, seus sentidos estavam turvos. "De que adianta acordar?..." - naquela manhã John dera seu ultimo suspiro, um sorriso transmitia a paz tão esperada. Achara a resposta. Estava livre enfim...


quarta-feira, 11 de junho de 2008

Atalhos...



"Ela estava parada em uma encrusilhada da estrada. Qual caminho escolher?
Nunca parara para pensar sobre bifucarções no caminho, tinha traçado seu objetivo, pensara em seguir direto para ele, como um cavalo que apenas segue em frente e nada vê ao redor; ela tinha colocado sua viseira mental.
Mas a vida tem a incorrigível mania de causar duvidas, trazer surpresas...E agora ela não sabia o que fazer. 'Qual caminho devo seguir?' ela se perguntava. Não queria escolher, ela nunca foi boa em tomar decisões, ela nunca foi boa em seguir seus proprios passos, em fazer suas proprias regras...Era mais seguro, fazer o caminho conhecido, seguir a maré, obedecer aos padrões.
Ela estava confusa, e ja tinha perdido muito tempo. Sentada no meio da estrada, no limite entre as duas estradas, ela era apenas alguém que não sabia para onde ir.
Mas, derrepente uma luz à esquerda a atraiu. O sol estava se pondo, provocando nela uma incrivel atração , como uma seta reluzente, apontando o caminho. Ela nunca gostou dessa classificação e tudo que isso significava: O lado esquerdo, o lado oposto, o impar...aquele que não seguia os padrões.
Assim se dera conta, aquele era um atalho.
Se seguisse pela direita, continuaria seu caminho, o caminho seguro, o caminho esperado, o caminho onde nada de especial aconteceria.
Mas o sol estava lá...Oh, o sol...brilhando tão forte, trazendo paz, esperança, alegria a uma menina que nunca pudera sentir a liberdade de apenas ser alguém...alguém que cria seus proprios caminhos. Será que é realmente tão ruim? Tomar o caminho menos convencional? Sentir a liberdade e a ansia por um novo passo...?
Ana estava fascinada, seguia o sol como uma criança que corre atraz de um pequeno e doce coelhinho, como alice seguira o gato; e isso fez nascer outra Ana, a que sabia viver com suas proprias escolhas."

domingo, 6 de janeiro de 2008

O Jogo do Espelho

"Olhando no espelho do meu quarto essa manhã, pensei que era pequeno demais. Então, debruçando-me para ver melhor, porque ia viajar à tarde e queria estar bem, recordei-me aquele antigo jogo, de que geralmente nem me lembrava.
Parecia tão deslocado na minha vida de agora.
O Jogo: do tempo em que eu não era uma pacata dona-de-casa com filhos criados, mas uma menina sem mãe; que inventava o jogo do espelho pra ser menos infeliz.
A gente sentava na frente de outra menina e encarava: tão intensamente, com tamanho fervor e tanta vontade de a ver mudar, que a imagem aos poucos perdia seus contornos; ficava um borrão.
Por detrás do reflexo familiar ia-se formando outro alguém. De início, sorrateiro; depois, dominando tudo com seu poderoso olhar.
Seu nome também era: Alice.

-

Ela: o contrário de mim, meu reverso. Sempre à espera, por baixo da superficie. Livre pra detestar tudo o que, aqui fora, eu era obrigada a aceitar.
Alice, a dividida: foi assim que me senti essa manhã, um pouco aborrecida por rer de viajar. Estreitei os olhos, avaliando detalhes desre rosto: mais um pouco, serão cinqüenta anos.
A essa altura, o pior passou: as dúvidas, as inquietações, encobertas pelas águas da rotina. Sou apenas uma dona-de-casa, vida exclusivamente doméstica, marido e dois filhos que já são quase homens e nunca me deram preocupação.
Mas hoje sou obrigada a sair dessa concha: por um fim de semana, estarei na casa onde meu pai mora faz alguns anos, com minha irmã mais moça, Evelyn, e seu marido. Uma cidade próxima, uma hora de ônibus. Para que todo um fim de semana? Bastaria um encontro rápido, uma tarde talvez.
Não gosto de sair de casa; detesto viajar sozinha, e meu marido recusou-se a vir: afinal, disse, não era problema dele.
Se eu quisesse poderia ir. Então resolvi aceitar, mas, como não estou habituada a tomar decisões, fiquei inquieta.
-

(Não estarei andando à beira do abismo, as úmidas asas movendo-se no casulo...O que aconteceria se eu aceitasse incondicionalmente os convites de Alice e me enfiasse com ela em seu caminho de tantos reflexos?)

-
(....)

Eu brincava assim na meninice: de não ser eu. Não a coitada filha daquele Professor a quem ninguém apreciava; mas outra Alice - poderosa, inconquistável.
-
( Tudo fantasia. Mais tarde habituei-me à minha vida doméstica e segura; fora dela fico desamparada como um bicho que, despido da casca, expõe um corpo viscoso e mole, onde qualquer caco de vidro no chão pode penetrarm liquidando essa vida rastejante.)


Lya Luft - Reunião de Família. (trecho)