"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."  - Clarice Lispector

quarta-feira, 21 de novembro de 2007




Clara estava em pé na varanda, olhando o mar revolto que batia nas pedras à beira da praia, o vento soprava em teu rosto de porcelana, e balançava seus longos cabelos negros. Nesse momento a doce menina tinha os olhos perdidos em algum ponto da imensidão de nuvens cinzentas que começavam a tomar conta de um céu que até pouco tempo era de um intenso azul.
Nem eu saberia dizer ao certo quanto tempo havia transcorrido, desde o primeiro pensamento, desde que Clara pulou de ponta e mergulhou em seus sentimentos...
Ela sabia que muita coisa tinha mudado, e que mais mudanças estavam por vir, mesmo não sabendo dizer se aquilo lhe fazia bem ou mal.
Em algum momento de seu profundo mergulho sentiu todo o calor de seu corpo se esvair de uma vez, seria apenas uma rajada de vento? Ela gostaria de acreditar que sim, mas no fundo sabia que aquilo nada mais era do que seu coração lembrando-lhe de que as vezes é impossivel entender ou até mesmo aceitar algumas coisas que acontecem...Foi exatamente ai que começamos essa história.
Era tão triste perceber que as coisas haviam mudado de uma maneira irremediável sem que ela pudesse notar. Talvez teria sido menos cruel se tudo tivesse sido derrepente, que tudo tivesse sido visivel, seria mais compreensivel ao menos, já que mesmo após tanto tempo, Clara não conseguia saber em que momento a vida a levou para longe...Para longe da pessoa que ela mais precisava. Tudo que sabia, era que já era tarde para voltar, pois a chuva e os ventos haviam apagado suas pegadas na desconhecida trila que havia tomado.
"Eramos tão unidos, tão felizes, eramos fortes e juntos poderiamos passar por qualquer problema..."
Sempre havia sido assim, e Clara sabia que agora ela nada mais era do que uma pode menininha idefeza, Clara estava sem seu guia, sem seu anjo da guarda, como se aquilo fosse um castigo dos Deuses...O que teria feito para perder assim o rumo de seus passos? Será que enquando observava as estrelas o mundo apenas à mudou de lugar?
O barulho de uma forte trovoada trouxe clara de volta à uma varanda mal iluminada. Clara respirou profundamente enquanto as primeiras gotas anunciavam um grande temporal vindo das nuvens negras que agora cobriam todo o azul de outrora... Tudo que restava era esperar o temporal acabar, e torcer para que com a chegada de um novo dia de luz e calor, Clara pudesse enxergar o melhor caminho a seguir...

sábado, 10 de novembro de 2007

Epifania

Eu quero ficar perto de tudo o que eu acho certo
Até o dia em que eu mudar de opinião
A minha experiência, meu pacto com a ciência
Meu conhecimento é minha distração

Coisas que eu sei
Eu adivinho sem ninguém ter me contado
Coisas que eu sei
O meu rádio-relógio mostra o tempo errado... aperte o ‘Play’

Eu gosto do meu quarto, do meu desarrumado
Ninguém sabe mexer na minha confusão
É o meu ponto de vista, não aceito turistas
Meu mundo tá fechado pra visitação

Coisas que eu sei
O medo mora perto das idéias loucas
Coisas que eu sei
Se eu for eu vou assim não vou trocar de roupa... é a minha lei

Eu corto os meus dobrados
Acerto os meus pecados
Ninguém pergunta mais... depois que eu já paguei
Eu vejo o filme em pausas
Eu imagino casas
Depois eu já nem lembro do que eu desenhei

Coisas que eu sei
Não guardo mais agendas no meu celular
Coisas que eu sei
Eu compro aparelhos que eu não sei usar... eu já comprei

As vezes dá preguiça
Na areia movediça
Quanto mais eu mexo mais afundo em mim
Eu moro num cenário
Do lado imaginário
Eu entro e saio sempre quando to a fim

Coisas que eu sei
As noites ficam claras no raiar do dia
Coisas que eu sei
São coisas que antes eu somente não sabia...Agora eu sei. (Coisas que eu sei - Danni Carlos)


(....)



E finalmente, ela sentia que estava vendo o quadro por completo, pela primeira vez.
Ela sabia de coisas a tanto tempo, faltava-lhe apenas descobrir aonde estavam escondidas as memorias e sentimentos certos, para entrar em harmonia com ela mesma.
Ela respirou fundo, sentada na cadeira que dava para a vista da janela.
Ela sorriu..
Seu esperado momento de epifania estava acontecendo. Ela sabia...
Ela sabia de tantas coisas, e podia ver o mundo da maneira certa enfim...
E, ali, sentada, ela deixou os momentos transcorrerem...da maneira que ele escolhesse passar. Ela não mais se preocupava no minuto que viria a seguir. Era apenas ela, seu mundo imerso de paz e magia...E nada mais.

(...)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007





"- Poderia dizer-me, por favor, que caminho deverei tomar a partir daqui?” - perguntou Alice.
“- Isso depende muito de onde queres ir” - respondeu o Gato de Cheshire. "Podes seguir conosco"
"- Mas eu não quero andar com loucos "- Observou Alice.
"- Oh, você não tem como evitar"; disse o Gato, "- Somos todos loucos por aqui...Eu sou louco. Você é louca!"
"- Como é que sabe que eu sou louca?" -Disse Alice.
"- Você deve ser;" disse o Gato; "Se não, não teria vindo pra cá."
Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, 1865



A realidade é sempre mais sutil do que podemos perceber da nossa posição alienada que é nosso proprio mundo.
Tenho ouvido por toda a parte que o mundo está um caos e que chegamos a um ponto insustentavel. Mas será?
Estamos todos tão presos à imagem de nossos próprios pés, que não conseguimos ao menos saber pra onde estamos indo, ou por quem passamos.
Julgar pessoas, atitudes e comportamentos é tudo que fazemos e assim nos esquecemos que não somos os donos da razão.
Vivemos, todos nós, presos ao nosso proprio mundo. Estamos todos olhando apenas para nossos pés, enquanto andamos rumo à lugar nenhum.
A verdade é que o 'mundo real' seria bem menos cruel se apenas deixassemos de lado as fantasias e os contos de fadas que nunca virão, e começassemos a tentar enxergar, mesmo que de relance ao que está à nossa volta. Desprender-se das amarras da "razão" pode significar mais do que apenas ser louco...
Mas... Quem sou eu pra dizer o que é certo.
É, talvez eu seja mesmo louca. ;)